Padma Sambava
Texto Budista Tibetano, provavelmente anteriores ao século VII d.C. De leitura complexa, mas selecionado por seu profundo significado espiritual.


 
SOM



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A Doutrina Da Clara Luz

 1 — A quarta doutrina, aquela da Clara Luz, consiste em três partes: a Clara Luz fundamental, a Clara Luz sobre o Sendeiro e a Clara Luz resultante.

 PRIMEIRA PARTE

 A CLARA LUZ FUNDAMENTAL

 2 — Da primeira, a Clara Luz Fundamental, foi dito: “Que este ensinamento selecto para o reconhecimento da Clara Luz seja o Fundamento, o Sendeiro e o Fruto, deves sabê-lo bem, ó discípulo”.

 3 — Foi dito que o Estado Real, a Identidade Verdadeira de to­das as coisas, inseparável do Vazio, além do domínio dos fenômenos, enquanto se experimenta a Grande Felicidade do pensamento que vai além, é a Clara Luz primordial.

 SEGUNDA PARTE

 A CLARA LUZ SOBRE O SENDEIRO

 4 — A segunda parte, a Clara Luz sobre o Sendeiro, consiste em três práticas ou procederes: a mistura da natureza da Clara Luz com o Sendeiro durante o dia (no estado de vigília), a mistura da natureza da Clara Luz com o Sendeiro durante a noite (no estado de sono), a mistura da natureza da Clara Luz com o Sendeiro no estado posterior à morte (durante as experiências do Bardo que se desenvolvem entre a morte e o renascimento).

 Primeira prática

 A MISTURA DA NATUREZA DA CLARA LUZ

 COM O SENDEIRO DURANTE O DIA

 5 — A primeira prática, a mistura da natureza da Clara Luz com o sendeiro durante o dia, é designada por “Cinco Doutrinas” pois qualquer que seja o grau atingido no Conhecimento “d’Aquilo que é a Identidade Verdadeira”, graças ao poder das Três Sabedorias bem purificadas, vem-se a compreender o progresso atualmente feito no Conhecimento da Perfeição.

 6 — Qual é o primeiro passo que deve ser dado? Entrar em comunhão com o guru.

 7 — Um recém-nascido que acaba de ser retirado do seio materno serve de alegoria na exposição do procedimento iogue a seguir.

 8 — O que define os limites? A Luz, Calor e o Conhecimento os definem.

 9 — A identificação com a Clara Luz deve ocorrer no intervalo existente entre a cessação de um pensamento e o nascimento do pensamento seguinte.

 10 — A Clara Luz é empregada no Sendeiro praticando as seis regras de Tilopa que são: “Não imagina, não pensa, não analisa, não medita, não reflete, permanece no estado natural.”

 11 — Meditando assim acerca daquilo que aparece como o Vazio e as aparências fenomênicas, os dois aspectos de uma dualidade que, em sua natureza real, perfazem uma unidade, ocorre a descida da Clara Luz.

 12 — Esta condição do espírito sem obscuridade, primordial, que no intervalo existente entre a cessação de uma formação de pensamento e o nascimento da seguinte, é a Clara Luz Mãe.

 13 — O reconhecimento disto é a mistura da Clara Luz Mãe e a Clara Luz de descendência e é chamada “a mistura da natureza da Clara Luz e do Sendeiro na Unidade”.

 Segunda prática

 A MISTURA DA NATUREZA DA CLARA LUZ

 COM O SENDEIRO DURANTE A NOITE

 14 — A segunda prática, que consiste em fundir a Natureza da Clara Luz com o Sendeiro durante a noite, foi descrita da seguinte forma:

 “Tendo feito abrir o Lótus do Coração em suas quatro pétalas e em seu centro visualiza as sílabas AH, NU; TA, RA, HUM.”

 15 — Também se disse: “Nos agregados, na constituição e nas faculdades dos sentidos, concentra agora todos os poderes do duplo Cognoscente. Para aquele que dorme depois de ter transmutado àqueles no grande Vazio, os sonhos virão pela virtude dos exercícios respiratórios”.

 16 — Assim que se começa a dormir, dorme-se profundamente. Este estado de sono é simbolizado pela superfície calma de um oceano; seus limites são definidos pela Luz, o Calor e o Conhecimento.

 17 — O reconhecimento da Clara Luz ocorre no intervalo que se encontra entre a cessação das experiências do estado de vigília e o começo das experiências do estado de sono.

 18 — A Clara Luz é empregada no Sendeiro como aplicação dos ensinamentos escolhidos relativos à mistura do estado de Diana (meditação profunda) e o estado de sono.

 19 — Enquanto ocorre a mistura do estado de Diana e o estado de sono, uma súplica deve ser dirigida ao guru a fim de que seja capaz de reconhecer a Clara Luz. Toma então a firme resolução de reconhecê-la.

 20 — Estendendo-te para dormir, deita-te sobre o lado direito, segundo a postura do leão deitado.

 21 — Imagina então que teu próprio corpo é o da divindade tutelar; visualiza no coração um lótus com quatro pétalas tendo no centro de sua superfície a sílaba J-IUM, na superfície da pétala superior a sílaba AH, na superfície da pétala da direita, a sílaba NU; na superfície da pétia inferior a sílaba TA e na superfície da pétala da esquerda, RÃ, sendo cada sílaba claramente traçada.

 22 — Sonolento, deslizando para o sono, deixa todas as coisas visíveis ou perceptíveis se resolverem em ti.

 23 — Então, na sonolência, torna-te o Lótus de quatro pétalas.

 24 — Depois, quando o sono te dominar, deixa tudo se fundir no signo superior AH, depois no signo da direita NU, depois no signo inferior TA, depois no signo da esquerda RÃ, depois, no signo central HUM. Depois a vogal HUM na parte HA da vogal HUM, depois no signo do crescente sobre a vogal HUM, depois no círculo que está acima e na chama que encima o círculo.

 25 — Assim que o conhecimento desta visualização se dissipar, pensa que dormes profundamente no estado da Clara Luz. Fazendo desta forma, entra-se no estado de ioga da análise retrospectiva ou meditação.

 26 — Pode-se concentrar o espírito sobre a série de sílabas conjuntamente; AH, NU; TA, RÃ, RUM, que é o conhecimento completo.

 27 — Enquanto se medita desta forma no intervalo compreendido entre o estado de vigília e o de sono, experimenta-se a Luz.

 28 — O estado onde se é dominado pelo sono é como o Calor.

 29 — O estado onde se se encontra ao dormir é o Conhecimento.

 30 — A alba da Clara Luz se elevando no sono profundo é a Clara Luz Mãe.

 31 — Tomando por base da prática o processo do deslizamento gradual no sono, quando se mantém o espírito livre de pensamento (condição mental na qual o deslizamento gradual aparece como o Vazio), a Clara Luz de descendência luzirá.

 32 — O reconhecimento da Clara Luz fundamental (ou Mãe) por este método, sendo semelhante ao reencontro com uma pessoa conhecida, é chamada: a mistura da Clara Luz da Mãe e da Criança.

 Terceira Prática

 A MISTURA DA NATUREZA DA CLARA LUZ

COM O ESTADO PÓS-MORTE

 33 — A terceira prática, a mistura da natureza da Clara Luz com o Sendeiro no estado Pós-Morte, é exposta na Doutrina do Estado Pós-Morte, a seguir:

 TERCEIRA PARTE

 A CLARA LUZ RESULTANTE

 34 — Da terceira parte, a Clara Luz resultante, foi dito: “O corpo puro ilusório dotado do conhecimento da Clara Luz que jorra do estado da Clara Luz como um peixe sai da água ou a forma de Vajra-Dara que se levanta como aquele que desperta, simbolizam a mistura da Clara Luz da Mãe e do Filho, resultante da preparação que tem por base os ensinamentos e o estudante que estuda esses ensinamentos.”

 35 — Esta realização que marca o grau de perfeição espiritual atingido é chamada nos Doze Graus, o Grau da grande Rejubilação do qual foi dito: “Quando as formas ilusórias tocam o Informe e obtém-se a compreensão daquilo que penetra tudo e daquilo que é Real e o magistério daquilo que é muito claro, daquilo que é durável e da sidi da transformação. E estes são conhecidos como os Oito Dons Supremos.”

 36 — Deste modo, é o estado de Buda perfeito do Grande Vajra-Dara que resulta da Sabedoria não-ensinada, na qual o ensinamento e aquilo que é ensinado, cessam.

 37 — Disto foi dito: A fruição do pleno poder dos Princípios do corpo divino, da palavra divina, do espírito divino e da sidi de Transformação. Assim que, todos semelhantes se manifestam no Movente e no Imóvel, satisfazendo todos os desejos e dotados de todas as virtudes, constitui os Oito Poderes absolutos, que são o fruto da ioga”. Aqui termina a Doutrina da Clara Luz.

 Bardo Thödol – Hemus Editora