O Sendeiro da Sabedoria Transcedental:
A questão de Shári-Putra
1 — Assim eu ouvi: Uma vez o Conquistador entre a grande assembléia do Sangha composta de Bícshus e Bodisatvas no Pico do Abutre em Rajagriha, estava sentado mergulhado nesse samádi chamado a lluminação profunda.
2 — E no mesmo momento o Bodisatva, o Grande Ser, Ária Avalokiteshvara, sentado, meditando sobre a profunda Doutrina de Prajna para mitá que os cinco agregados são da natureza do Vazio.
3 — Acerca disto, inspirado pela potência do Buda, o Venerável Shári-Putra se dirige assim ao Bodisatva, ao Grande Ser Ária Avalokiteshvara: Como um ser nobre desejoso de praticar os profundos ensinamentos da Prajna para mitá pode compreendê-los?
A RESPOSTA DE AVALOKITESH VARA
4 — Tendo ouvido a questão, o Bodisatva, o Grande Ser, Ária Avalokiteshvara respondeu e falou assim ao filho de Shári Dvati:
5 — “Shári-Putra, todo ser nobre, filho ou filha espiritual desejoso de praticar os profundos ensinamentos da Prajnaparamitá deve compreendê-los da seguinte forma:
6 — Os cinco agregados devem ser compreendidos como sendo natural e inteiramente, o Vazio.
7 — As Formas são Vazio e o Vazio é Forma; nem as Formas nem o Vazio podem ser separados, nem as Formas serem distintas do Vazio.
8 — Assim, a percepção, o sentimento, as tendências e a consciência são o Vazio.
9 — Assim, Shári-Putra, todas as coisas são o Vazio sem características, não-nascido, não-entravado, não-sujo, impoluível, sem subestrutura: Vazio.
10 — Shán-Putra, sendo assim, o Vazio não possui forma, nem percepção, nem sentimento, nem tendências, nem consciência; nem olhos, nem orelhas, nem nariz, nem língua, nem corpo, nem mente, nem forma, nem som, nem odor, nem gosto, nem tato, nem qualidade.
11 — Onde não há olhos, não há desejos e assim até...
“não possui consciência de desejo”.
12 — Não há Ignorância, não há vitória sobre a Ignorância e assim até... não há decrepitude e morte, não há vitória sobre a decrepitude e a morte.
13 — Com o mesmo sentido, não há dor, não há mal, nada a retirar, não há Sendeiro, não há Sabedoria, nada a atingir ou a não atingir.
14 — Shari-Putra, sendo assim — pois mesmo para os Bodisatvas nada há que deva ser atingido repousando na Prajnaparamita, não há obscuridade mental da Verdade e por esta razão nenhum temor e indo bem além dos sendeiros dos erros e das doutrinas chega-se com sucesso ao Nirvana.
15 — Também todos os Budas que permanecem nos Três Tempos atingiram o estado de Buda, o mais elevado, o mais puro, o mais perfeito, apoiando-se na Prajna para mitá.
16 — Sendo assim, o Mantra da Prajnaparamitá, o mantra da Grande Lógica, o mais alto mantra, o mantra que toma igual àquilo que não pode ser igualado, o mantra que acalma a toda dor e não contendo nenhuma mentira é conhecido por ser verídico, o mantra da Prajnaparamitá é agora pronunciado.
Ó sabedoria, parti, parti, parti para a outra margem, sva-há.
17 — Shári-Putra, um Bodisatva, um Grande Ser deve assim compreender a Prajnaparamitá.
A APROVAÇÃO DO BUDA
18 — Então o Conquistador saiu do estado de samádi e disse ao Bodisatva, ao Grande Ser, Ária Avalokiteshvara: “Bem, Bem, Bem”.
19 — E após esta aprovação disse: “É assim, ó Ser Nobre, é assim. E como descreveste a profunda Prajnaparamitá, deve ser compreendido. Os Tathágata (ou: os Budas) também ficaram satisfeitos com esta explicação.
20 — O Conquistador tendo assim falado: o venerável filho de Shári-Dvati, o Bodisatva, o Grande Ser, Ária Avalokiteshvara e todos os seres lá reunidos - devas, homens, asuras, gandarva (espíritos aéreos musicais) e o mundo inteiro - rejubilaram-se e louvaram as palavras do Conquistador.
Aqui termina a Essência da Maravilhosa Sabedoria Transcendental.
Bardo Thödol – Editora Hemus