Karma SanYâsa Yoga
Renúncia das obras
Então falou Arjuna, o príncipe de Pandu, a Krishna, o Senhor Bem-aventurado, dizendo:
"Ó Senhor, ora louvas a renúncias das obras, ora a prática das obras. Dize-me, de ambas qual é a superior? Fala-me claramente, para que em mim não haja mais dúvida nem confusão".
O Verbo Divino:
"Ó Arjuna, tanto a renúncia como a prática das obras têm grande mérito; ambos conduzem ao alvo supremo. Entretanto, é preferível a prática das obras à sua renúncia; a reta ação é muito melhor do que a inação. Para não caires em confusão, discerne bem o uso desses termos. Só se abstém verdadeiramente, aquele que não odeia a ação, nem por ela se apaixona; assim é que ele pratica a renunciação, nada odiando e nada desejando. Quem está acima dos contrastes e conservando-se calmo e contente, sempre pronto a cumprir a sua tarefa e, contudo sem apegar-se à obra, facilmente se liberta dos vínculos da ilusão.
Os inexperientes que principiam a estudar a Verdade, costumam designar o conhecimento e as obras ou a abstenção da ação e a prática da reta ação como duas coisas diferentes; mas os sábios as reconhecem como uma coisa só; pois, quem tem o conhecimento, há de ter também as obras e quem tem as obras, terá igualmente o conhecimento.
Ambos estes caminhos conduzem ao mesmo fim e os que seguem um deles chegam ao mesmo ponto que os que vão pelo outro. Quem tem a reta percepção vê que o conhecimento e a atividade ou (por outras palavras) a renúncia e a prática são uma coisa só, em sua essência.
Abster-se e renunciar é muito difícil para quem não tem experiência das ações; abençoado porém, é aquele que sabe harmonizar os dois caminhos; o seu espírito dirige-se ao Eterno e une-se com Deus, entrando na Paz do Nirvana.
Quem é firme na prática da Reta Ação e, ao mesmo tempo, domina a si mesmo, subjugando à Vontade Divina os seus sentidos e desejos, sente-se uno com tudo o que existe e não é influenciado pelas obras que pratica. Ele conhece a Vida Universal e o que dela procede e sabe que não é ele, como espírito quem age, mas é a sua natureza que vê, cheira, sente, come, caminha e respira.
Em verdade, pode ele dizer: "os sentidos fazem a sua parte no mundo sensual; deixemo-los agir, eu não sou vinculado nem iludido por eles, porque sei qual é o seu fim". Quem encara suas ações como obra dos sentidos e as executa sem apego, não é maculado pelo egoísmo, tal qual a flor de lótus, que não é poluída pelas águas que a rodeiam.
O yogi, tendo se libertado de todo o apego, executa as ações do corpo, da mente e do intelecto e até dos sentidos, sempre com o fim de purificar a mente e sem qualquer motivo egoísta.
Vivendo em harmonia com a Natureza, tendo abandonado o desejo e a esperança de recompença pelas ações, alcança a Paz. Ao contrário, o homem que não vive em tal harmonia e que nutre desejos de recompensa por suas ações, é turbado, inquieto e descontente. A alma do sábio que, no fundo de sua vontade, renunciou a toda ação e inação própria e não procura recompensa, habita o corpo, que é o Templo do Espírito, conserva-se quieta, em paz, sem o desejo de agir e sem causar ação e entretanto, está sempre pronta a executar a sua parte na ação, quando o dever a chama. Porque o sábio sabe que ainda que o seu corpo, essa cidade com as nove portas, se ocupe das ações, o Eu Real permanece imperturbado.
O Senhor do Mundo (o Eu Real) não engendra nem atividade, nem as ações, nem as relações entre a causa e o efeito. Em tudo isso age apenas a natureza dos seres.
O Senhor do Mundo não interfere nem nos pecados nem nas boas ações de ninguém. A luz da sabedoria está obscurecida pela fumaça da ignorância e o homem ilude-se com isso e pensa que a fumaça é a chama, não podendo enxergar esta atrás daquela. Mas aqueles que são capazes de transpor a fumaça, percebem a Clara Luz do Espírito que brilha como uma infinidade de sóis, livre e sem o véu da fumaça que a esconde às vistas da maior parte dos homens.
Meditando sobre o Altíssimo, que é o Eu Real, unindo-se a Ele, conhecendo-O, passa o sábio a estados superiores, aos planos mais altos, dos quais não volta mais para os degraus da existência. O Conhecimento da Verdade consumiu todos os seus pecados e erros e ele entra no Reino da Bem-aventurança.
À sua vista, sendo livre da fumaça do erro e da ilusão, reconhece um Ser em tudo; igual sentimento e respeito tem ele para os homens eruditos, reverendos, nobres e iluminados, como para os pobres, ignorantes e desprezados e até para as vacas, os elefantes e os cães. Porque tendo vencido as ilusões, vê que as personalidades de todas as formas de vida são irreais, comparadas com o Eu Real, de maneira que, contempladas do alto, desaparecem até as maiores distinções mundanas.
Os que conservam a equanimidade, já neste mundo se unem a Brama (Deus Criador), porque Ele é imutável e eternamente o mesmo. Não te deixes arrebatar, quando te acontece algo desagradável, nem percas o ânimo, quando tens má sorte. Levanta o teu pensamento à claridade limpa da esfera divina, imerge-te em Deus e n´Ele vive.
Em delícias eternas vive a alma que em si mesma encontra a fonte da felicidade, sendo unida com Deus e desapegada dos objetos do mundo exterior. Os prazeres nascidos dos contatos dos sentidos externos e a que chamam "satisfação", são fontes de sofrimento, porque tem princípio e fim. O sábio não procura neles a sua felicidade. Feliz é aquele que, nesta terra, ainda antes de deixar o corpo, pode resistir aos impulsos do desejo e da ira. Quem em si mesmo encontra o céu, quem em si mesmo encontra a Luz da iluminação, é um yogi, é um Santo; a sua vida conflui com a vida de Brama e são lhe abertas as portas do Nirvana. Assim os Rishis, tendo-se libertados dos pecados, tendo vencido toda idéia de dualismo e separação e vendo que toda a vida é uma, que toda ela emana de Um e sentindo que o bem estar de todos é o bem estar de cada um, unificaram-se com o Todo e entraram no Nirvana.
Assim todos os homens que seguem o seu exemplo, vivendo em humildade e na luz da fé, controlando as ações e dominando o eu inferior, aproximam-se da Paz Divina.
O verdadeiro yogi, deixando os objetos exteriores influenciar só o seu exterior e não a sua alma, abre as vistas interiores à Luz Eterna e une a sua respiração externa com a interna, em ritmo de harmonia. Todos os seus sentidos obedecem à vontade Espiritual, todo o seu pensar tem as raízes em Deus; nada para si deseja, nada receia; a ele não tem acesso nem ódio nem ira: a sua salvação está realizada. Ele Me conhece como Sou, sabe que Me agrada o domínio de si mesmo, reconhecendo-Me como o Senhor do Universo e amante de todas as almas, une-se Comigo. Pois Eu sou o amparo de todos os que em Mim se refugiam".
Bhagavad Gita-Editora Pensamento